Lembranças

idosos

Estou cansada, apesar de passar o dia todo deitada, e nos últimos tempos as coisas parecem um pouco confusas. Têm dias em que acordo em um ambiente que não reconheço e cada vez mais pessoas estranhas vêm me ver, falam comigo como se eu fosse alguma espécie de idiota – de forma pausada e gritando como se eu fosse surda – e vão embora chorando. No início, achei que me confundissem com alguém, mas não tenho certeza. Uma mocinha de cabelos vermelhos acabou de sair daqui. Ela passou duas horas me contando histórias sobre a sua infância, com um olhar repleto de esperança, como se esperasse que eu me lembrasse de algo. Mas do quê? Eu nunca a vi antes, como poderia saber algo sobre a sua infância? Ela é simpática, bonita até, e os cabelos vermelhos e os olhos azuis de alguma forma me lembraram você. É por isso que eu não me importei e deixei que ela ficasse e falasse, já que você nunca aparece.

Outro dia perguntei sobre você para uma das moças que veio me dar remédio, mas ela apenas sorriu, como você costumava fazer quando não tinha a menor ideia sobre o que eu estava falando, e saiu, voltando para os seus afazeres. Eu sempre odiei aquele sorriso. Mas apenas aquele, pois o sorriso torto que você me deu na primeira vez em que nos vimos sempre foi o meu sorriso favorito no mundo todo. Algo ali me dizia que eu não devia me apaixonar por você e, ainda assim, era um convite irrecusável ao amor. Nunca fui muito boa em dizer não para o que quer que seja, imagine se eu seria capaz de recusar justo um amor como aquele que o seu sorriso torto me oferecia?  E eu não me enganei. Você podia ser insuportável quando queria, mas do nada abria seu sorriso e eu me derretia. Não pelo sorriso torto em si, mas pela ternura que ele levava aos seus olhos. Um estava sempre acompanhado do outro, e da covinha nas bochechas.

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Tenho a sensação de que dormi por dias, mas podem ter sido apenas minutos. A menina de cabelo vermelho esteve aqui e trouxe um álbum de fotos dessa vez. Havia algumas fotos de um casamento e fiquei me lembrando do nosso, você estava tão charmoso naquele fraque escuro, parecendo tão confiante, tão seguro de si, enquanto eu estava tão nervosa que quase não consigo me lembrar de nada. Mas lembro do sorriso que você abriu quando meu viu pela primeira vez vestida de noiva; ele era torto. E a ternura estava presente nos olhos. E havia covinhas também.

As pessoas entram e saem cada vez mais apressadas daqui, seja lá onde for este lugar. As visitas da menina de cabelo vermelho duram cada vez menos, pois ela não consegue controlar seu choro. Coitada, deve estar passando por algum problema. Vai ver ela conheceu algum rapaz de sorriso torto. Sonhei que você dizia que viria me visitar esta noite, enquanto eu estivesse dormindo. Mal posso esperar. Acho que vou dormir agora…

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2 Comentários

Arquivado em Crônicas e Contos

2 Respostas para “Lembranças

  1. Isabella

    The past is just a story we tell ourselves! #only
    ❤ ❤ ❤

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