A bailarina

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A suave melodia foi o que primeiro me atraiu até a janela dos fundos do pequeno estúdio, mas então, logo meus olhos estavam presos na belíssima imagem que se desenrolava lá dentro. A menina alta, esguia e sensual era linda, mas não foi isso que quase me fez perder o fôlego e sim a forma quase etérea com que ela rodopiava de um lado ao outro da sala. A bailarina dançava e isso era a única coisa que importava. Não havia contas para pagar, amores mal-resolvidos, dúvidas existenciais, nada, havia apenas a bailarina e sua dança.

E na dança ela estava inteira, sem máscaras, sem subterfúgios e em cada movimento ela se desnudava mais diante dos meus olhos. Em cinco minutos observando a bailarina eu sentia que a conhecia mais do que conhecera qualquer mulher com quem me relacionara em e por anos. Ela não tinha medo de ser ela mesma, de mostrar seus medos, suas angústias, seus sonhos, suas imperfeições. Afinal, a bailarina sabe que a beleza está nas imperfeições.

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Havia algo de melancólico na música e nos movimentos ora bruscos ora lentos, na forma aparentemente sem controle com que seu corpo se movia para cá e para lá. Olhando de fora, parecia que a bela bailarina fazia amor com a melodia que soava de um velho toca-discos no chão da sala, perto da porta. E do encontro do seu corpo com as notas musicais surgia o movimento hipnotizante e eu, como um voyeur, mal respirava.

Aliás, a sensação é de que seguia sem respirar enquanto voltava a caminhar, descendo a rua lentamente rumo a mais um dia de trabalho, me perguntando como seria se eu pudesse entrar na sua vida, se eu pudesse tomá-la em meus braços e rodopiar com ela pela sala. Ela me permitiria entrar? Se mostraria inteira, como havia se mostrado sem saber? Ou foi tudo uma miragem e só a melodia suave pode realmente conhecê-la por inteiro?

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1 comentário

Arquivado em Crônicas e Contos

Uma resposta para “A bailarina

  1. Isabella

    ” Eu sou a chuva que lança a areia no Saara
    Sobre os automóveis de Roma
    Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara
    Água e folha da Amazônia

    Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
    Você não me pega, você nem chega a me ver
    Meu som te cega, careta, quem é você?

    Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
    Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
    E que não riu com a risada de Andy Warhol
    Que não, que não, e nem disse que não

    Eu sou o preto norte-americano forte com um brinco de ouro na orelha
    Eu sou a flor da primeira música,
    A mais velha e mas nova espada e seu corte

    Eu sou o cheiro dos livros desesperados, sou Gitá gogoya
    Seu olho me olha, mas não me pode alcançar
    Não tenho escolha, careta, vou descartar

    Quem não rezou a novena de Dona Canô
    Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
    Quem não amou a elegância sutil de Bobô
    Quem nao è reconcavo nem pode ser reconvexo “

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