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Eu não vou voltar

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Esquece moço, eu não vou voltar. Não é que todos esses anos não tenham significado nada, mas chega uma hora em que é preciso ver que certas lutas não são nossas e, nesses casos, não vale a pena lutar. O desgaste é grande demais e a recompensa nunca chega. Na verdade nem sei porque você insiste tanto na minha volta. Seja sincero, moço, você me quer por que razão? Garanto que nem você mesmo sabe por quê. Ou melhor eu sei sim, você percebeu que tem medo de ficar sozinho, porque a solidão atrai os fantasmas. E você sempre foi cheio deles, não é mesmo? Pois sinto muito, rapaz, foi você mesmo quem se colocou nessa situação. Foi você mesmo quem decidiu que não queria mais.

Sabe, moço, houve um tempo em que eu estive disposta a lutar contra cada um desses fantasmas, mas você sempre foi bom demais em jogá-los para debaixo do tapete e fingir que tudo estava bem. Você sempre se recusou a falar comigo e no final eu parecia uma espécie de Dom Quixote, lutando lutas imaginárias contra fantasmas que nem eram meus. Me sentindo esgotada, ferida, desamparada por um relacionamento que não era meu. É por isso que eu não vou voltar, moço. Cansei de tentar curar feridas que não se fecham, cansei de chorar por achar que estava fazendo algo errado, quando na verdade, o meu único erro era não ser outra pessoa.

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Eu estava aqui o tempo todo e você não viu. Agora é tarde. Cansei de não saber que lado seu voltaria para casa no fim do expediente. Cansei de fazer planos dos quais você nunca quis fazer parte. Cansei de ser apenas eu enquanto achava que éramos nós. Pois bem, agora somos apenas isso, eu de um lado, você de outro. Aceite isso, moço, afinal você já deveria estar acostumado com essa equação. Você mais alguém nunca formou um nós. Talvez até tenha formado um dia, no passado, mas há muito tempo que você não sabe mais o significado do nós na sua vida.

E se é pra ser apenas eu, vou ser apenas eu. Ao contrário de você, descobri que estar sozinha não é algo ruim. Os meus fantasmas não me atormentam como os seus. Talvez porque ao contrário de você eu não tento evitá-los. Não adianta mais me procurar moço, eu não vou voltar. Eu mudei muito desde aquela tarde em que saí pela última vez do seu apartamento, mas não da maneira como você gostaria. Eu não virei ela, então não adianta. Você pode até fingir, mas vai continuar não me vendo, vai continuar não querendo fazer parte dos meus planos, das minhas conversas, das minhas lutas e por isso, por tudo isso, eu não vou voltar!

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Eu podia ter pedido para você ficar

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Sonhei com você essa noite, moço. Você me dizia que havia algo de bonito na tristeza que via em meus olhos e que se fosse bom com as palavras escreveria sobre a menina com nome de bailarina e olhos tristes. E olha que você nem sabe que os olhos ficaram ainda mais tristes desde aquela noite gelada em que você me deu um beijo na testa e sumiu na escuridão da noite de Praga, sem olhar para trás, me deixando ali com o fica, por favor entalado na garganta.

Eu sei que bastavam aquelas três palavrinhas, ou apenas o fica, mesmo que sussurrado, e eu poderia ter mudado tudo. Poderíamos ter seguido os planos, viajado a Europa inteira apenas com as nossas mochilas nas costas. Passado noites e mais noites sentados na praça ou na entrada do hostel de qualquer cidade conversando, como fizemos em Praga, falando sobre tudo e sobre nada, você me contando sobre a sua vida, eu fugindo de falar do meu passado e do que primeiro tornaram os olhos tristes. Com você, ali eu me permitia esquecer, pelo menos por algumas horas. Nos seus braços eu era apenas mais uma garota sem traumas e apenas com sonhos pela frente, compartilhando da sua alegria e dos seus sonhos tão simples e, por isso mesmo, tão bonitos.

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Eu podia ter pedido para você ficar, mas o quanto isso teria sido justo com você? Eu posso ser bem egoísta às vezes, moço, mas eu não podia ser egoísta com você. Não podia assumir a culpa de acabar com os seus sonhos doces, com o seu sorriso fácil. E acredite em mim, em algum momento eu faria isso. Eu sempre faço e com você, moço, eu não suportaria a culpa. Por isso eu fiquei ali, com o fica, por favor entalado na garganta. Por isso eu fechei os olhos para não te ver se afastar cada vez mais de mim. Por isso mesmo Praga terá sempre um quê de saudade e melancolia para mim.

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