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Uma peça trash

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Você diz que não aguenta mais, que a carga está pesada demais para você e eu acredito. Acredito porque há meses a tensão anda tão pesada que é possível cortá-la com uma faca se um de nós tentarmos fazer isso. Há anos, talvez, qualquer olhada de rabo de olho pode ser a faísca faltante para desencadear a explosão que poderá não tenha mais volta. E ultimamente não sei mais se quero que tenha ou não volta. Estou cansada. Cansada de não saber se posso ou não falar. Cansada de ter que medir cada uma das palavras ditas. Cansada de ter que viver minha vida quase como se fosse um roteiro em que cada passo é ensaiado, cada palavra pensada durante horas para estar ali. Cadê a espontaneidade? Cadê o beijo simples e despretensioso? Cadê a vontade de estar junto por vontade, por tesão e não por comodismo ou pior, por pena?

Você não aguenta mais e eu respiro aliviada. Internamente peço que dessa vez um de nós tenha a coragem de realmente colocar um fim em tudo isso. De dizer a palavra final. De fazer um favor imenso ao que ainda resta de amor próprio a cada um de nós. Mas então você chora, eu choro e a gente continua empurrando nosso relacionamento com a barriga. Fingindo que nada demais está acontecendo. Evitando falar, evitando qualquer tipo de contato. Vivendo nossas vidas como uma grande peça, exaustivamente ensaiada e automaticamente interpretada. Uma peça que ninguém quer ver.

Nem eu!

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O dia em que eu fui embora

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É engraçado que sempre me lembro de você reclamando da minha péssima memória e da minha completa incapacidade de guardar nomes, datas e outras coisas que você considerava tão importantes. Mas se por um lado não sei dizer a cor da camisa que vesti hoje cedo para ir ao supermercado, sou capaz de descrever, com riqueza de detalhes, aquele sábado. O cinza lá de fora combinava perfeitamente com o meu estado de espírito. Aliás, há tempos eu não sabia o que era tempo bom aqui dentro. E se quer saber, continuo não sabendo.

Era claro que você não iria chorar na minha frente. Você sempre foi orgulhosa demais para isso, mas eu não precisava das suas lágrimas para enxergar o seu sofrimento. Ele era uma cópia exata do meu. E se eu sangrava por dentro, eu sabia que não era diferente dentro de você. Sempre fomos um espelho um do outro e mesmo um espelho rachado ainda é capaz de refletir a imagem colocada diante dele.

casal separado

Por uma ironia do destino você vestia exatamente aquela bata verde que eu tanto gostava em você e que geralmente eu fazia desaparecer do seu corpo na velocidade da luz. Sim, ela ficava linda em você, mas você ficava ainda mais linda nua, na minha cama. Mas ali, naquele clima pesado que parecia esperar apenas por uma fagulha para mandar tudo pelos ares, aquilo me parecia muito, muito distante.

Ao fechar a porta atrás de mim, libertando as lágrimas exatamente como eu sabia que você fazia do outro lado, um sol tímido saiu por detrás das nuvens, atingindo o meu rosto. Um sinal de que tudo aquilo iria passar? Quem sabe. Antes de eu sair, lutando contra as lágrimas, você me perguntou se eu deixei de te amar. Muito pelo contrário, talvez um dia você entenda que fechar aquela porta foi a maior prova de amor que eu poderia dar, para você e para mim.

 

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