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Não, não era sinal do destino

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Eu odeio brócolis. E pensar que você quase me convenceu de que era o meu legume preferido. Você quase me convenceu de tanta coisa… Houve um tempo que cheguei a pensar que você era o príncipe que eu esperava quando menina. Que boba que eu fui. Príncipe, veja só? Se a carruagem vira abóbora porque o príncipe não viraria sapo? Eu deveria saber que cedo ou tarde a vida daria um jeito de jogar na minha cara que contos de fada não existem e que o fato de você completar as minhas frases, veja só, não era um sinal do destino.

Sim, houve um tempo em que você completou minhas frases, para logo em seguida começar a falar por mim até me calar de vez. A cerveja do final de semana logo virou o destilado de todo dia e a mão que antes acarinhava não demorou a deixar marcas que nada tinham a ver com carinho. Você mudou da água para o vinho (será mesmo?) e eu fui levada a mudar junto. O sorriso foi substituído pelas lágrimas, a alegria contagiante pelo medo, os decotes, saias e vestidos por calças e blusas cada vez mais fechadas, sufocantes como tudo ao meu redor.

liberdade

Mas esta manhã, como em um conto de fadas (quem disse que eles não existem?), ao sair no corredor para jogar o lixo fora encontrei a nova vizinha e seu filho de apenas dois anos. Ele me olhou com seus olhinhos inocentes e começou a rir para mim, mandando beijos e quando vi estava rindo junto com ele. Sim, veja só, eu ainda sei rir. Surpreendente não é mesmo? O susto foi a minha primeira reação. E foi então que me dei conta que se eu ainda era capaz de rir com aquele menininho, eu era sim capaz de andar com as minhas próprias pernas e seguir para bem longe de você.

Não sei para onde vou ou o que vou encontrar pelo caminho, mas ao fechar essa porta deixo você para trás, assim como as lágrimas e as marcas de abuso. E mais do que tudo, volto a ter esperanças!

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O dia em que eu fui embora

surpresas_janela

É engraçado que sempre me lembro de você reclamando da minha péssima memória e da minha completa incapacidade de guardar nomes, datas e outras coisas que você considerava tão importantes. Mas se por um lado não sei dizer a cor da camisa que vesti hoje cedo para ir ao supermercado, sou capaz de descrever, com riqueza de detalhes, aquele sábado. O cinza lá de fora combinava perfeitamente com o meu estado de espírito. Aliás, há tempos eu não sabia o que era tempo bom aqui dentro. E se quer saber, continuo não sabendo.

Era claro que você não iria chorar na minha frente. Você sempre foi orgulhosa demais para isso, mas eu não precisava das suas lágrimas para enxergar o seu sofrimento. Ele era uma cópia exata do meu. E se eu sangrava por dentro, eu sabia que não era diferente dentro de você. Sempre fomos um espelho um do outro e mesmo um espelho rachado ainda é capaz de refletir a imagem colocada diante dele.

casal separado

Por uma ironia do destino você vestia exatamente aquela bata verde que eu tanto gostava em você e que geralmente eu fazia desaparecer do seu corpo na velocidade da luz. Sim, ela ficava linda em você, mas você ficava ainda mais linda nua, na minha cama. Mas ali, naquele clima pesado que parecia esperar apenas por uma fagulha para mandar tudo pelos ares, aquilo me parecia muito, muito distante.

Ao fechar a porta atrás de mim, libertando as lágrimas exatamente como eu sabia que você fazia do outro lado, um sol tímido saiu por detrás das nuvens, atingindo o meu rosto. Um sinal de que tudo aquilo iria passar? Quem sabe. Antes de eu sair, lutando contra as lágrimas, você me perguntou se eu deixei de te amar. Muito pelo contrário, talvez um dia você entenda que fechar aquela porta foi a maior prova de amor que eu poderia dar, para você e para mim.

 

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