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Eu posso sim

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Você nunca pareceu entender que pra machucar não é necessário bater ou dar beliscões. Você não mente quando diz que nunca levantou a mão pra mim. Mas deixou marcas muito mais profundas.

Meu coração parecia perder um compasso e a alma ganhar um roxo a cada palavra ríspida, a cada falta de incentivo e crítica aos meus gostos e jeito de ser.

Um novo hematoma se formava cada vez que você desmarcava nossos compromissos sem qualquer explicação, como se eles não significassem nada; quando tomava decisões que envolviam a nossa vida com base apenas na sua vontade ou quando parecia não me enxergar quando eu estava completamente despida, e não falo apenas de roupas, diante de você.

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Uma falta de carinho aqui. Um xingamento ali. Um gesto indelicado acolá. Você sempre dizia que eu não podia nada sem você. Pois bem, posso ir embora.

Vai demorar para todos os roxos, hematomas e feridas se curarem, mas tudo tem seu tempo. Assim como houve o tempo de amar e de deixar você.

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Não, não era sinal do destino

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Eu odeio brócolis. E pensar que você quase me convenceu de que era o meu legume preferido. Você quase me convenceu de tanta coisa… Houve um tempo que cheguei a pensar que você era o príncipe que eu esperava quando menina. Que boba que eu fui. Príncipe, veja só? Se a carruagem vira abóbora porque o príncipe não viraria sapo? Eu deveria saber que cedo ou tarde a vida daria um jeito de jogar na minha cara que contos de fada não existem e que o fato de você completar as minhas frases, veja só, não era um sinal do destino.

Sim, houve um tempo em que você completou minhas frases, para logo em seguida começar a falar por mim até me calar de vez. A cerveja do final de semana logo virou o destilado de todo dia e a mão que antes acarinhava não demorou a deixar marcas que nada tinham a ver com carinho. Você mudou da água para o vinho (será mesmo?) e eu fui levada a mudar junto. O sorriso foi substituído pelas lágrimas, a alegria contagiante pelo medo, os decotes, saias e vestidos por calças e blusas cada vez mais fechadas, sufocantes como tudo ao meu redor.

liberdade

Mas esta manhã, como em um conto de fadas (quem disse que eles não existem?), ao sair no corredor para jogar o lixo fora encontrei a nova vizinha e seu filho de apenas dois anos. Ele me olhou com seus olhinhos inocentes e começou a rir para mim, mandando beijos e quando vi estava rindo junto com ele. Sim, veja só, eu ainda sei rir. Surpreendente não é mesmo? O susto foi a minha primeira reação. E foi então que me dei conta que se eu ainda era capaz de rir com aquele menininho, eu era sim capaz de andar com as minhas próprias pernas e seguir para bem longe de você.

Não sei para onde vou ou o que vou encontrar pelo caminho, mas ao fechar essa porta deixo você para trás, assim como as lágrimas e as marcas de abuso. E mais do que tudo, volto a ter esperanças!

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